Cio Metafísico
E então eu me ponho a escrever porque ainda há muito a dizer, há muito para se esclarecer, há muito para se imaginar, então eu escrevo agora porque a qualquer momento posso morrer. Não. Não posso morrer. Me recuso a morrer antes de escrever tudo - Tudo, para todos.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Lembrete.
- Quase não acreditando.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Dia dezoito de Dezembro de 2010.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
( Eu tenho que contar essa história porque essa história está engasgada nos meus pensamentos e freqüentemente ela tem me impedido de escrever outra coisa. Então eu escrevo porque ela insiste, não porque eu quero. Eu quero me livrar logo dela, para não ter que escrevê-la ou pensá-la de novo. Mas tenho medo. Tenho porque essa é uma história muito delicada. E é uma história muito difícil de narrar. Sinto que por mais que eu me esforce a acrescente elementos e me concentre e tente, eu jamais conseguirei descrevê-la com precisão. Jamais. O entendimento dessa história é maior que tudo o que conheço, o momento dessa história é delicado demais e nós, humanos, com nossas patas insensíveis e imediatas, jamais conseguiremos absorvê-la como quem absorve uma fruta. Essa história não é digerível. Só é digerível para quem viveu. Quem viveu, vai logo saber e o sentimento vai voltar. Viver tem mais peso que a escrita, ainda mais a minha, tão imprecisa. Então, já peço que me perdoem. Me perdoem pela minha falta de capacidade de descrever essa história como deveria ser descrita. Mas eu preciso dar para alguém essa história. Eu não quero mais ficar com ela.'Tome-a! É sua, abra!' E sem saber, é o peso e a insistência do mundo de presente... )
As garotas, animadas, enchiam seus balões de água.
Os garotos, escondidos, enchiam seus balões de água.
Uma chuva forte rasgava o ar. Mas não houve quem se importasse, isso tornou tudo até melhor.
Andaram todos, garotos e garotas, como se estivesse combinado, para um lugar espaçoso e aberto.
Contaram...3...2...1...já!
E os balões cheios de água estouravam em corpos já molhados. Os garotos miravam nas pernas e nos seios das garotas que pareciam não importar com isso. As garotas j0gavam os balões nos garotos. Todas tinham em quem jogar. Era óbvio. Se você está a fim de um garoto, em quem você vai jogar o balão de água? Nele, obviamente. E ele? Em você. É a lógica. Se você tem uma amiga, muito, muito amiga em quem você vai jogar o balão? Nela, obviamente. Ou então combinarão as duas de jogarem em um garoto amigo das duas. E se segue assim. Quem via de longe, via uma pequena confusão de amontoado de pessoas. Eu estava mais perto, sentada, embaixo de uma árvore, então via detalhadamente as expressões, de onde vinham os gritos - quem gritava. A confusão estava quase fim (durou apenas alguns minutos, no máximo trÊs), foi quando eu vi.
Havia uma garota.
Ela estava com todos os seus balões na mão e estava mais seca que os outros. Ela sustentava um sorriso ansioso, sem saber o que fazer, olhando pros lados, olhando pros outros- e olhou pra baixo.
Ninguém parecia notar que ela estava ali. Ninguém jogou um balão de água nela.
Quando ela percebeu que a confusão já estava acabando, para não parecer ridícula, jogou os balões, um de cada vez, no chão. E parou de sorrir por uma fração de segundo. Depois voltou a sorrir, como se tivesse se divertido muito e estivesse até cansada.
Ela não me viu. Ela tem certeza que não foi vista. Ela tem certeza que esse momento de solidão e vergonha, ficou só pra ela. É assim: num momento, ela estava como todos, se divertia como todos. Mas ela não foi escolhida por ninguém para se divertirem juntos.
Isso não foi uma metáfora. Eu não faço metáforas quando não quero parecer idiota.
Life
O que fazer quando a princípio se cria em algo que acredita ser a Verdade Absoluta e o Desejo Original, mas que, por uma ironia da Vida, descobre-se que o que parecia Absoluto e Original, não passava de Falso e Raso?
E o que fazer ainda, quando, por mais uma ironia da Vida, para que as máscaras pudessem cair você teve que ganhar algo imutável que estará sempre contigo de uma forma ou de outra, mas que não coincide com o que você descobriu ser seus Verdadeiros Desejos e suas Verdades Originais?
Passo a passo.
Você já sentiu como se tivesse se preparado pra algo, com todo o esforço que pôde, com toda a certeza que iria, com toda a vontade que daquilo acontecer?
Você, alguma vez, já parou para olhar em volta e sentiu alivio por ser um dos único s a saber o que quer? Já teve a certeza de um objetivo, certeza de um querer, certeza de uma Vida?
É uma corrida. Estamos ou já estivemos todos nela. E eu sabia, eu tinha certeza, que iria seguir meu caminho, e iria chegar a algum lugar.
Eu tinha sonhos grandes.
Me ensinaram que o fato de você saber que caminho seguir já era uma vantagem, assim eu não me perderia nas inúmeras escolhas entre as ladeiras e curvas.
Durante o treinamento, uma vez, me disseram que eu só poderia continuar se amputasse minhas duas pernas porque elas estavam podres. Hesitei. Como correria sem elas? Então me disseram que se não amputasse, a podridão tomaria todo meu corpo. Eu não tive escolha. Mas me asseguraram que não é impossível correr estando sem as pernas. No treinamento, ganhei próteses removíveis e exercitei meus braços.
Eu tinha vergonha de não ter minhas pernas, mas todos, depois que o choque passava, pareciam achar bonito meu esforço e até o fato de eu não ter pernas.As pessoas pediam para tocar a pele onde deveria estar minhas pernas. As pessoas tiravam fotos comigo. As pessoas me diziam que eu era a mais bonita pessoa sem pernas. Eu não gostava de nada disso, mas as pessoas insistiam.Algumas me olhavam com ar de pena. Outras, eu via, tinham repulsa por mim. Mas as pessoas com quem eu correria sempre me tratavam bem. E me elogiavam, e me ajudavam quando eu precisava. Meus treinadores também me ajudavam muito. E eu agradecia. Olhava e agradecia. Até aqueles que não se dedicavam muito me ajudavam, e eu pensava que aqueles ali não chegariam nem no meio da corrida e seria uma pena ter que ir sem eles.
Até que os dias foram passando e chegou o dia da corrida. Me coloquei no meu lugar. Então o dono da corrida veio falar comigo. Ele disse: “Desculpe, mas você não pode concorrer com eles. Você deveria estar ali. Na sua categoria.” – Ele apontou para a corrida de aleijados, dementes e problemáticos. Eu olhei para ele firmemente e disse:
“Eu não vou correr ali. Eu posso muito mais do que isso. Eu não nasci aleijada, eu já soube andar sozinha! Eu não sou demente, nem problemática! “
– “Desculpe, mas se permanecer aqui, você não poderá usar as próteses.” – Mais uma vez, me tiravam o que aprendi a depender. – “ Se for pra lá, você poderá usar. E há mais chances de ganhar a corrida, ou chegar a algum lugar.”
“ Sinto muito, senhor,mas eu não vou pra lá. Eu não quero aquele caminho, eu sei muito bem onde quero chegar e não é pra onde aquele caminho leva.” – Tirei minhas próteses bruscamente. – “ E eu não preciso mais delas. São falsas, são de ferro e plástico. Me machucam, nunca precisei delas. Antes com meu vazio real do que com essa falsa sensação de ter as pernas de volta.”
“Quando a corrida começar, ninguém poderá te ajudar.” – Ele ainda tentou me convencer, com uma voz cortez, ao me olhar no chão, apoiada com os braços, a cabeça pra cima, como se estivesse desafiando-o. Ele me olhava com pena, sabia da injustiça de uma luta entre alguém como eu e alguém como ele. Na verdade, eu também sabia. Mas não mudei minha postura:
“Eu sei. Dê a partida! Eu treinei. Não sou diferente de nenhum deles. “ - Meu olhar era ameaçador. A cena era cômica. Minha cabeça tinha que estar muito inclinada para cima para conseguir olhar nos olhos do homem, que se curvou pouco para baixo. Ele tinha uma postura humilde de autoridade. Eu tinha uma postura um tanto arrogante atípica de simples corredora. Ele desistiu. E assim que ele virou de costas, eu tentei me ajeitar em uma posição de saída. Não tinha a mínina idéia de como faria. Fiquei com medo. Todos os outros corredores estavam concentrados, olhando pra frente. Eu estava bem perto do chão. Pude sentir o cheiro de areia e terra. Apertei um punhado com as mãos. Uma lágrima caiu.
“Preparar!”
Todos se colocaram em posição. Eu tentei e era impossível.
“ Oh, Deus, minhas pernas, minhas pernas. Quero minhas pernas de volta...( Deus?! )”
“Apontar!”
Não tentei me colocar na outra posição que dependia exclusivamente da primeira. Me contentei em olhar pra frente, e só via pés e calcanhares. Estava com o corpo apoiado nos cotovelos.
“ Jáá!” – A voz gritou. E imediatamente todos começaram a correr e alguma poeira se formou, me fazendo tossir. As pernas se distanciavam rapidamente. Eu tentava correr apoiada nos braços. E eu contava como tinham me ensinado: “um, dois, três passos. Quatro, cinco, seis passos. Sete...Oito...” – parei rapidamente, abri e fechei minhas mãos, sujas de terra. “Nove, dez, passos!” Depois do dez, voltava pro um e assim eu continuava. As pernas já tinham sumido do meu campo de visão. Eu focalizava no meu objetivo invisível e ia. Eu não me perderia. Eu sabia onde queria chegar. Ficou difícil continuar com as mãos, apoiei os cotovelos, estava mais lento, mas continuei. Aproveitei para limpar as mãos no meu cabelo, era fácil de fazer enquanto rastejava. “Um, dois, três passos! Quatro...Cinco... seis passos! Sete... Oito...” Meus cotovelos falharam, caí de cara no chão. Terra na boca. Um pouco de sangue. ‘Levantei’ devagar. Cuspi. Limpei a boca com as mãos meio sujas. Olhei em volta e estava sozinha. Exceto pelo público da corrida. Eles me olhavam. Cochichavam. Tive ódio deles. Estava rodeada dessa gente que já participou de corridas e agora cuida de quem vai participar. Era o público e os outros treinadores. Olhei para trás e estavam os meus treinadores. E eu odiava cada um deles. O ódio foi bom, porque me deu ânimo para voltar a me rastejar. Mas quando tentei, depois de outros vinte passos, torci meu pulso.
“Não vou desistir.”
Dei poucos outros passos depois disso. Fiquei praticamente parada. Estou parada. A terra está mais próxima de mim. Ela fica quente a noite. E eu deito pra ver as estrelas.
Então agora, vocês sabem qual a sensação de ver todo mundo ir e você ficar? Não ficar porque quer, mas porque suas condições te impedem? Vocês sabem a sensação de um passo a cada 5 minutos , quando se está em uma corrida?
Vocês sabem a solidão que é, ver que todos se foram e nenhum deixou uma palavra de apoio, nenhum tentou te levantar?
Eu fiquei na companhia do público, que cochicha minha derrota.
Que aposta na minha fraqueza.
Fiquei com a decepção vinda do olhar dos meus treinadores.
Fiquei até sem lágrimas.
Fiquei eu. Eu e minha dolorosa ausência de pernas.