Todos já estavam no salão, e só uma pessoa se encontrava na frente de todos, falando.
Quando a garota abriu a porta, sabia o que iria encontrar e ao que estava se sujeitando.
Todos os olhares encontraram imediatamente aquela postura tímida, que pedia desculpas com um sorriso sem graça pela interrupção.
Ao sentar-se, procurou o lugar mais distante possível e o mais perto possível, para não chamar atenção por se excluir e também para não ser vista por quem ficaria atrás.
Procurou prestar atenção no que mulher gorda da frente dizia, com aquela voz de telefonista.
A garota ouviu e só conseguia se arrepender por ter ido. Muito blá blá blá. Muitos clichês que não mais satisfaziam seu espírito, ao contrário, o deixavam mais inquieto, quão rasas e vãs eram as palavras da telefonista. Mas agiu como uma formiga.
Se levantam, ela levantava também. Se aplaudissem, ela aplaudia. Se se ajoelhassem, ela ajoelhava.
Desse modo, ninguém sabe dizer realmente se a formiga está realmente interessada naquilo que está fazendo ou não. Mas pelo menos parecia.
Ela tinha nojo por estar ali, pena daquelas pessoas por se agarrarem a coisas tão supérfluas disfarçadas de fervor.
Mas não demonstrava nada. Apenas se um alguém muito bom na arte de observar parasse na frente dela e a olhasse nos olhos durante um tempo é que perceberia o quanto ela estava desconfortável com aquilo tudo, o quanto estava querendo mandar todos pro inferno.
Mas ninguém faria isso. Ninguém pararia para olhar nos olhos dela e tentar descobrir o que realmente estava ali.
A mulher gorda com voz de telefonista deu então um papel para cada um e uma caneta.
'Nós estamos reunidos aqui porque gostamos de nos alegrar na presença do Senhor! Nesse ano que passou, Ele nos deu muitas coisas e nós somos muito gratos por tudo aquilo que ele nos concedeu. Estar aqui é uma forma de agradecimento à Deus, ir a missa, rezar à noite, tudo isso, nos deixa cada vez mais próximos de nosso Pai! Sabendo disso, quero que vocês escrevam aí seus agradecimentos à Deus por esse ano maravilhoso que passou! E mesmo que o ano não tenha sido tão bom, agradeçam mesmo assim! Porque Deus sabe o que faz."
A garota olhou petrificada para a mulher. Percebia que todos sorriam um para o outro, e se animavam em começar a escrever logo. Dessa vez a garota não estava conseguindo disfarçar a frustração, e imediatamente abaixou a cabeça fingindo que escrevia algo. A mulher sentada ao lado dela sorriu. Todos sorriam. Um homem se pronunciou:
- Eu queria agradecer aqui, na frente de todo mundo, porque minha irmã estava doente, e eu rezei muito por ela, e sempre colocava o nome dela nas orações do grupo, e graças a Deus, hoje, minha irmã está bem! A cirurgia foi milagrosa!
- Amém! - algumas pessoas gritaram, não ao mesmo tempo.
Silêncio. Mais uma vez a garota estava sozinha com o papel branco.
O que escreveria?
Tentou lembrar do que, no ano anterior, ela poderia ser grata à Deus.
As coisas materiais? Não. Deveria agradecer à seus pais.
As coisas ruins, a solidão, aos erros? Não. Esses cabiam somente à ela.
As coisas boas, os momentos de alegria? Também não. Esses dependeram, além das pessoas à sua volta, à ela mesma também.
Mais uma vez ela estava sozinha com o papel branco. E não sabia o que escrever.
Finalmente, escreveu e dobrou rápido o papel.
Olhou em volta e mulher ao seu lado lhe sorriu mais uma vez.
Ela retribuiu o sorriso sem dar muita importância.
O encontro acabou pouco tempo depois. E ela foi pra casa, com sensação de tempo perdido.
No papel estava escrito:
"Eu nada Vos dou porque nada me deste."
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