quinta-feira, 25 de novembro de 2010

- Você está chorando? - Ela se aproxima, curiosa.

- Hum? - A garota levanta a cabeça de leve, fitando o chão.

- Por que você está chorando?! - Ela estaca no chão de braços meio abertos.

- ... - A garota continua fitando o chão.

- O que houve? - Ela senta na beira da cama, fazendo carinho nos pés da garota.

- Ei, mãe...Olhe para mim... - A garota levanta os olhos vermelhos e cheios de lágrimas contidas.

- !?!? - A mulher olha a garota sem entender.

- Estou velha. - A garota diz séria, olhando nos olhos da mãe.

- Ah, Jéssica, pelo amor de Deus! - A mulher se levanta impaciente. - Vou te proibir de ler esses livros!

-...Não tem nada a ver com meus livros... - A garota volta a olhar o chão.

- Ah, não!? Então, me explica para que esse drama todo!! Eu vou te contar uma coisa, hein, Jéssica! Você só tem 18 anos! Tem muita vida ainda pela frente! Me dá esse livro aqui...

- ... - A garota esconde o livro entre o corpo e a cama. - Esse livro é feliz... E ele me faz perceber o quanto estou triste ultimamente...

- Você não tem motivo para estar triste! Quem tem sou eu, que convivo com você, e suas bagunças!

- ...

- Por que ela tá chorando?!? - Chega a irmã.

- Ela disse que tá velha! - Acusa a mãe.

- Hahahaha! São esses livros que ela lê! Ela passa tudo pra vida dela!

- O livro é feliz... - A garota olha a irmã, os olhos ainda cheios de lágrimas, o rosto pálido, mas tentando dar um sorriso convincente, mostrando o livro. A irmã pega o livro.

- Clarice Lispector! - A irmã grita, escandalizada.

- Nunca tive saco pra ler... - A mãe comenta com desdém.

- O livro fala de um homem que teve que fugir e agora está por conta própria só vivendo.

- E ele faz o que no final? Corta os pulsos? ahahaha - As duas riem com o comentário da irmã.

- Não cheguei no final...

- Vocês me deêm licença que eu tenho mais o que fazer. - A mãe sai. A irmã joga o livro na cama e sai atrás.

Eu sei que vocês não querem saber, mas os livros que leio não são causa de meu choro. Muito pelo contrário. Eles têm sido minha única fonte de paz ultimamente. Se leio muito talvez seja porque minha realidade está cinza demais, de concreto demais, e talvez eu precise de algumas flores coloridas de vez enquando. Talvez eu precise sentir que tem alguém que me entende. Ou se não entender, preciso de alguém que esteja ali só para ouvir e no final não dizer nada. Só apertar minha mão ou me olhar com um meio sorriso. Só isso. Eu só queria ouvir de vocês: puxa, que legal, você deixou tudo organizado hoje. - ou então: eu te amo porque você sempre diz que me ama e eu percebo que você sempre diz. - ou ainda: você é uma boa mãe, eu tenho orgulho de você.

Como sou boba. Preciso me sentir aprovada por eles. Mas sou humana... E todo mundo sabe o quanto é cansativo nunca ouvir uma palavra de conforto.

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